Charlie Haden, Cascais 1971
(glórias e pecados)

 

A história já foi contada por inúmeras vezes, por mim também, que estava a escassos vinte metros do palco, naquele longínquo 20 de Novembro de 1971, e considero-o mesmo um dos acontecimentos, cultural, social e político, mais marcantes do período próximo do 25 de Abril (1). Sobre escrevi em 2002 na All Jazz (2) e posteriormente noutros meios.

Decorria o primeiro Festival de Jazz de Cascais, Miles Davis já tinha tocado e actuava o quarteto de Ornette Coleman quando o contrabaixista, Charlie Haden, se aproxima do microfone para apresentar a composição seguinte, «Song for Che», dedicando-a aos movimentos de libertação das ex-colónias portuguesas: This next song is dedicated to the black peoples of liberation movements of Mozambique, Guinea, Angola. E seguiu-se uma estrondosa ovação que não permitiu sequer ouvir a frase toda de Haden e que  se prolongou por uma eternidade.

No dia seguinte ao concerto, quando iniciava a viagem de regresso, Charlie Haden tinha a polícia política à sua espera no aeroporto para uma viagem grátis até à Rua António Maria Cardoso, onde seria interrogado por largas horas, até ser libertado após a intervenção da embaixada dos Estados Unidos.

O episódio ganhou dimensão internacional e deixaria uma marca indelével nos milhares de jovens que compunham a assistência, até pela coragem de alguém se expressar publicamente contra o colonialismo, que era um dos pilares do regime do Estado Novo. Mesmo que Charlie Haden fosse um cidadão americano, e tivesse a noção de que seria, de certa forma, intocável.
Por este episódio Charlie Haden granjearia de uma popularidade que ultrapassa em muito a música, e que é política, como um amigo da liberdade e de Portugal.

O cordial excelentíssimo
A informação que é possível encontrar na Torre do Tombo sobre o episódio é escassa. O relatório da Direcção-Geral de Segurança (PIDE/DGS), «oficial», convenientemente elaborado em papel azul de 25 linhas pelo escrivão João Evangelista Gomes, relata sumariamente a reunião havida entre o Excelentíssimo Inspector-Adjunto  Senhor Carlos Lopez Velloso e, servindo de intérprete, Manuel Garcia da Costa Júnior; pouco mais de duas páginas.
Um outro documento, que aparentemente não deu origem a relatório, regista apenas a «apresentação» na sede da PIDE/DGS do 1.º Secretário da Embaixada dos EUA, Sr. Conley, e o adido Sr. Gomez, «com o fim de se informarem do sucedido tendo lamentado o incidente que atribuem à ignorância do citado músico sobre a situação do nosso País pelo que julgam não ter havido intenção reservada na atitude tomada», concluindo: «O americano aqui referenciado partiu para Londres, na TAP, hoje 22 às 09.00».

É sabido que muita informação da PIDE foi desviada ou destruída em 1974, e a informação que é possível encontrar na Torre do Tombo é pouca, e o relatório que na altura foi produzido era até muito simpático, relectindo a imagem de bons rapazes que eles eram; mas creio que essa ausência de informação reflecte também muito da impotência da agência de informação e repressão do Estado Novo perante a rebeldia de um «cidadão americano».
O Excelentíssimo (a terminologia bajuladora era obrigatória) parecia ofendido!: se ele, Charlie Haden, tinha sido bem tratado em Portugal, porque é que tinha querido prejudicar  Portugal dedicando uma canção aos movimentos africanos de independência? E o faz-de-conta continua no relatório de ocorrências do «Funcionário Superior de Serviço» a 21 de Novembro, quando a PIDE não questiona as desculpas dos Senhores Conley e Gomez de que Haden ignorava a situação do nosso país: «...tendo lamentado o incidente que atribuem à ignorância do citado músico sobre a situação do nosso país pelo que julgam não ter havido intenção reservada na atitude tomada».  
E, enfim, impotente, a PIDE tinha oferecido transporte gratuito para o aeroporto ao contrabaixista do «quarteto Hornet Coleman».

É óbvio que a PIDE/DGS percebia a importância da intervenção de Charlie Haden num festival maioritariamente jovem de 10.000 pessoas e as últimas linhas do relatório da PIDE eram claras: «... que o festival de jazz que se realizaria hoje à noite foi cancelado devido às reações da parte mais jovem da assistência». E, já agora, não se tratava das reações dos comunistas ou de um qualquer grupo de terroristas, mas «da parte mais jovem da assistência»: a PIDE tinha a exacta noção do apoio que a guerra colonial tinha entre a juventude, que era zero.

Entrevista a Charlie Haden
Charlie Haden foi entrevistado por inúmeras vezes sobre o episódio, que correu mundo, mas talvez que a entrevista que deu a Amy Goodman do Democracy Now (3) em 2006, de que transcrevo uma parte, seja elucidativa:

...
CHARLIE HADEN: ...Mas vi no itinerário, antes de partirmos, que íamos tocar a Portugal, e não concordava com o governo de lá. Era um governo meio fascista. Tinham colónias na Guiné-Bissau, em Angola e Moçambique, e estavam a exterminar sistematicamente a raça negra, sabes? Então liguei ao Ornette e disse-lhe: "Sabes, eu não quero tocar em Portugal". E ele disse: "Charlie, já assinámos o contrato. Temos de tocar. É o último país da digressão. Arranja maneira — talvez possas fazer alguma coisa para protestar?"

AMY GOODMAN : O regime de Caetano.

CHARLIE HADEN: Sim. Então, durante a digressão, estávamos a tocar uma das minhas músicas, “Song for Che”, e eu decidi que, quando a tocássemos, por estar ligada a mim, por ser eu a fazê-la, a dedicaria aos movimentos de libertação dos povos negros em Moçambique, Angola e Guiné-Bissau. E perguntei — acho que estávamos na Bulgária, a participar num festival de jazz. Ou na Roménia, estávamos em Bucareste, e perguntei a um jornalista português: “Estou a planear...” — porque ele conhecia a Liberation Music Orchestra. E ele perguntou: “O que é que vais fazer?” E eu respondi: “Vou dedicar... o que aconteceria se o fizesse?”
Ele disse: "Bem, três ou quatro coisas diferentes. Podes ser baleado na hora, ou podem tirar-te do palco, ou podem prender-te no palco. Podem prender-te no teu camarim. Ou podem prender-te mais tarde. Mas vais ser preso."
E eu pensei, sabes, acho que não me vão prender, pá. Sou um músico de jazz norte-americano. Isto é um festival de jazz. Não tem nada a ver com política. Acho que estou seguro.
Então fiz a dedicatória e não fui preso logo, mas, quando fiz a dedicatória estavam lá jovens, estudantes, que estavam nos lugares mais baratos da frente, e todos começaram a gritar tão alto que não se ouvia a música. E muitos polícias andavam a correr com armas automáticas, e, logo depois de termos terminado a nossa actuação, interromperam o festival e fecharam o grande estádio de Cascais onde estávamos a tocar. E voltámos para o hotel, e aí comecei a ficar preocupado com o que ia acontecer.
No dia seguinte fomos para o aeroporto e eu estava a tentar embarcar o meu contrabaixo no avião para garantir que o conseguia levar, e havia centenas e centenas de pessoas em frente aos balcões das companhias aéreas. Então um funcionário da TWA veio ter comigo e disse: "Há um homem ali que quer entrevistá-lo, e você tem de ficar aqui". E eu respondi: "Não quero ser entrevistado."
Então Ornette aproximou-se e perguntou: "O que se passa?" E eles responderam: "Eles querem entrevistar o Sr. Haden, e vocês vão apanhar o avião. Ele vai ficar aqui." Mas Ornette disse: "Não, não vamos embarcar. Vamos ficar aqui com ele". Mas eles disseram: "Não, vocês não vão. Vocês vão embarcar." E pegaram-lhes pelos braços e conduziram-nos para dentro da aeronave. Eu fiquei ali e eles levaram-me por uma escada em espiral até uma sala de interrogatório e começaram a bombardear-me com perguntas, até que disseram: "Vamos transferi-lo para a sede da PIDE."

AMY GOODMAN: A polícia?

CHARLIE HADEN: Era a polícia política de Portugal. Então eu disse, "Sou cidadão dos Estados Unidos e tenho passaporte americano. Exijo poder ligar para a embaixada." E o tipo que trabalhava para a TWA olhou para mim, sorriu e disse: "É domingo, Sr. Haden. O senhor não pode ligar para a embaixada. Não se deve misturar política com música."

(...)
CHARLIE HADEN: E, de repente, estava num carro a caminho de uma prisão. E atiraram-me para uma sala escura, sem luz, e fiquei lá um tempo que não sei precisar. Um longo, longo tempo. E finalmente... quer dizer, fiquei traumatizado. Sabes, pensei que nunca mais veria os meus filhos. Pensei que tudo tinha acabado. Eu não sabia o que eles iam fazer.
Então finalmente vieram buscar-me à sala e levaram-me para uma sala de interrogatório com luzes muito, muito fortes. Eu não conseguia ver nada. E havia um tipo que falava inglês e começou a bombardear-me com perguntas, e uma das perguntas, para a qual eu estava meio preparado, porque pensei em tentar enganá-los, foi: "Porque é que fizeste esta dedicatória?". E eu disse: "Bem, tenho feito uma dedicatória em todos os países que visitámos. Dediquei algo na Alemanha ao povo alemão. Dediquei algo em França". E ele disse: "Espera que acreditemos nisso?". Enfim, trouxeram-me uma declaração para assinar. Recusei-me a assinar, e eles começaram a olhar — um tipo tinha um bastão, e na mão estava a fazer assim. E...

AMY GOODMAN: Bater contra a outra mão.

CHARLIE HADEN: Bater contra a outra mão. E quando eu estava a pensar que tudo tinha acabado, um tipo desceu e sussurrou algo ao ouvido do polícia chefe. E, de repente, ele mudou completamente e disse: "Sr. Haden, o senhor vai subir. Alguém da embaixada americana está aqui para o ir buscar."
E subi para uma sala muito luxuosa, que era muito diferente da outra onde eu tinha estado, e o tipo disse: "Ei, Charlie, o que é que disseste na outra noite que causaste toda aquela confusão?, Uau!" E depois disse: "Bem, o meu nome é Bob Jones, e sou de Chicago. Sou o adido cultural aqui. Vem comigo e vamos tirar-te daqui".
E, acredita, eu só disse: “Oh, ótimo!”. Depois, fui a casa dele, depois ao aeroporto e consegui...

AMY GOODMAN: Era o adido cultural de Nixon em Portugal.

CHARLIE HADEN: Era o adido cultural de Nixon. Mais tarde, descobri também através de Ornette e de outras pessoas que os Estados Unidos não queriam fazer nada porque estavam muito constrangidos com o que eu tinha feito, por causa da NATO. E não queriam ter nada a ver com isso. E, por fim, acho que o Ornette também ajudou, e um dos produtores em Lisboa teve a gentileza de ajudar e disse: “Sabem, este tipo é um músico de jazz famoso, e é melhor deixá-lo ir, porque isto não vos vai ficar bem”. E deixaram-me ir, e eu fiquei muito feliz.

AMY GOODMAN: (...) Depois disso, a tua opinião sobre manifestares-te mudou? Isso fez de ti uma figura controversa para outros músicos de jazz? Os músicos apoiaram-te no que fizeste?

CHARLIE HADEN: A maioria dos músicos com quem toquei, apresentei e gravei apoiaram-me. Sabes, é uma luta constante para os músicos de jazz deste país conseguirem que a sua música seja tocada e chegue ao público. E nesta luta, não têm tempo — ou melhor, estão a lutar para tocar as suas músicas — e penso que é essa a razão pela qual muitos músicos não se manifestam politicamente.
Mas comecei a ficar preocupado quando o FBI apareceu no meu apartamento. Eles estavam a vigiar a casa. Vi carros estacionados na Rua 97, onde morávamos, e reconheci carros à paisana quando os vi. Um dia foram à minha casa, tocaram à campainha e disseram: "Somos do FBI. Queremos falar consigo." E eu respondi: "Bem, porque é que os deveria deixar entrar?" Disseram: "Bem, estamos a perguntar se podemos entrar e falar consigo." Então eu disse: "Não tenho nada a esconder. Entrem." Então, perguntaram-me, sabes, porque é que fizeste isso?" E eu respondi-lhes: "Não concordo com as políticas do governo português, e foi por isso que o fiz." E tinham um dossier completo sobre mim. Eu não queria acreditar.
Enfim, mas pensei nisso depois, e se tivesse de fazer de novo, eu faria tudo de novo. E como resultado, penso que, pelo que fiz, porque nunca ninguém tinha feito aquilo em Portugal, a minha mulher Ruth e eu descobrimos mais tarde que incluíram isso nos livros escolares das escolas portuguesas. E houve uma revolução em 1974 dos jovens oficiais, e derrubaram o Caetano. Ele fugiu do país. E penso que foi um senhor chamado Duarte [Soares] que assumiu o poder, governo socialista. Convidaram-me para voltar, e eu voltei e toquei. E havia 40.000 pessoas naquele grande campo em Lisboa, e todas cantavam: "Charlie! Charlie! Charlie!". E eu fiquei todo arrepiado. Senti-me tão bem.
(...) E foi muito bom voltar.
...

Numa outra entrevista a Martin Smith, Charlie Haden afirma que só foi libertado devido à intervenção de Ornette Coleman junto da embaixada dos EUA (4) e numa outra, menos crível ou exacta, Haden afirma que foi levado do palco para a PIDE (5).

A preparação
A entrevista de Amy Goodman esclarece alguns detalhes do episódio, a começar pela convicção de que ele tinha sido preparado anteriormente, e obviamente com a concordância de Ornette Coleman, e também o encontro com José Duarte, que era muito céptico (6) do festival de Cascais. O local onde José Duarte se encontrou com Haden também sempre me colocou algumas reservas, porque o contrabaixista não tocou em Varsóvia nesses dias (7). Duarte sempre disse ter-se encontrado com Charlie Haden em Varsóvia, mas o contrabaixista sugere, sem certeza, a Bulgária ou Roménia: «acho que estávamos na Bulgária, a participar num festival de jazz. Ou na Roménia, estávamos em Bucareste» (8). Mas a entrevista confirma o encontro, e as próprias palavras de Haden e Duarte concordam.

Do livro «É Jazz quando me chegam as lágrimas aos olhos» de Hélder Bruno Martins:
 
JD - (...) Apanhei o festival de Cascais em Varsóvia. Estive com os músicos. Uns conhecia, outros não.
Foi aqui que Charlie Haden me transmitiu que não viria a Portugal porque não tocava em paises fascistas. Eu disse-lhe, “não há países fascistas. Há governos fascistas! Não há povos fascistas!” O Haden fez um minuto de espera e disse:
“- Tens razão. Mas tenho de fazer alguma coisa que denote que eu sou contra a guerra em África.”
Mas depois disse-me assim:
“- Vou levar pancada...”
- Não. Não te batem. Não te tocam.
“- Como é que sabes?”
- Não te batem porque és cidadão norte-americano.
“. O que é que eu hei-de fazer? Qualquer coisa em cima do palco. Pôr um fumo?” ..
- Não. Ninguém te vai ver.
Ninguém repararia. Nem no que ele levava vestido, quanto mais aquilo preto. E depois eu disse:
- Há uma música que o povo gosta muito - menti-lhe, claro! - “Song for Che”. É boa!
“ - Boa ideia!”
- Falas: dedicas aquilo aos movimentos de libertação.
E depois estive a treinar-lhe o português de «Angola», de «Guiné» e de «Moçambique».
Já no concerto, no pavilhão de Cascais:
A primeira que ele disse foi Moçambique. Doze mil pessoas bateram palmas. Guiné já se ouve muito mal. Angola praticamente não se ouve e o resto não se ouve nada. Era tudo em pé.
Charlie Haden: “This next song is dedicated to the black peoples of liberation movements of Mozambique, Guinea, Angola.”
E as pessoas irrompem numa ovação de palmas e gritos de apoio. Um momento marcane na história política de Portugal.
Eu fiquei sentado a chorar. Tinha a máquina, que tinha levado para tirar fotografias. Tiraram-se poucas fotografias...  
...

O palco é todo seu, mas cuidadinho que as cadeiras não estão fixas ao chão
Um outro aspecto intrigante da história foi a atitude relativamente passiva da PIDE. Se, de acordo com o relatório assinado pelo tal excelentíssimo o festival tinha sido imediatamente cancelado, o que é que aconteceu para ele prosseguir nessa noite e no dia seguinte? E no ano seguinte?
Charlie Haden afirma que a polícia interrompeu o festival e fechou o pavilhão, mas ele continuaria nessa mesma noite e a interrupção talvez tenha sido apenas a normal demora de substituição das PA entre concertos, que nunca era inferior a três quartos de hora, e que ajudavam à lendária pateada com que o Villas era recebido. Mas Haden talvez já estivesse nos camarins ou no hotel e já não assistiu ao Dexter Gordon...

Ora de acordo com João Braga, um dos organizadores do festival (10), o comandante da PSP de Cascais ter-se-á dirigido à organização logo após o concerto de Ornette ordenando o fim do espectáculo com a ameaça de mandar entrar as duas camionetas de polícias de choque que estavam já à porta do pavilhão, ao que o fadista lhe respondeu: «Faça favor, o palco é todo seu, mas cuidadinho que as cadeiras não estão fixas ao chão» (11).
Terá vingado o bom senso, e o festival prosseguiu, com o atraso costumeiro. A minha recordação é a de que havia muita polícia, sim, e o concerto que se seguiu tardou, dos The Bridge, correu mal, mas havia muita juventude e a euforia daquele intervalo de liberdade superava tudo. E o primeiro dia do festival prosseguiu com Dexter Gordon até às cinco da manhã. (E eu cheguei ao Cais do Sodré já o dia rompia. Épico, para 1971.)

A noite não acabaria aqui, de acordo com João Moreira dos Santos, que acrescenta (12) que Villas-Boas e João Braga foram levados de madrugada para a PIDE, «tentando este último servir de moderador entre os agentes e Haden: «O Inspector Glória dizia-me “O gajo tem de levar uns tabefes” e eu disse que eles é que sabiam, mas que sabia como eram os tabefes da PIDE e que quando ele chegasse a Londres teria as marcas para mostrar à imprensa...», e mais à frente, que o festival apenas prosseguiu no segundo dia depois dos organizadores terem concordado em atribuir 500 livres-trânsitos aos agentes da DGS (PIDE) (13).
E enfim, a noite terá sido longa, e Luís Villas-Boas reivindica também para si os créditos da libertação de Charlie Haden:
... Em 71 tive eu que ir à PIDE falar com o Silva Pais (14) para soltar o Charlie Haden... (15)

Villas, o pragmático
Não sendo propriamente um entusiasta do regime, Luís Villas-Boas tinha sabido gerir a sua relação com o poder ao longo dos anos, desde a formação do Hot Club e até à Liberdade, e a presença de João Braga na organização do festival não seria inocente, já que ele possuiria contactos na elite financeira e também na política. Por outro lado ele tinha sabido insinuar-se junto da Câmara de Cascais, do SNI e da Junta do Turismo da Costa do Sol, que no festival tinham investido dinheiro e poder.
Com todos terá Luís Villas-Boas falado nessa noite, que convenceram a polícia política a deixar prosseguir o festival, com a sua garantia pessoal de que não haveria mais incidentes. 

... foi um acto gratuito pondo em causa o futuro do Festival. O Silva Pais já estava a dizer que não autorizava que o Festival prosseguisse na segunda noite. Quer dizer, os monstros do jazz, o Monk, o Sonny Stitt, não iam actuar. Mas, depois, lá o consegui demover e tudo correu bem, responsabilizando-me eu próprio por qualquer incidente mais que pudesse acontecer... , diria em 84 (16). e nada mais do que música aconteceu no palco do Dramático nesse segundo dia do festival. Depois de Miles Davis, Ornette Coleman e Dexter Gordon, foi a vez dos Giants of Jazz e do quinteto europeu de Phil Woods. 

E foi com pragmatismo que Villas-Boas preparou o festival de 1972. Numa carta dirigida ao Secretário de Estado da Informação e Turismo (17), o famigerado Dr. Moreira Baptista, de 1 de Agosto de 1972, Luís Villas-Boas e Hugo Lourenço descreviam exaustivamente o êxito do Festival de Jazz de Cascais Jazz de 1971 e apresentavam detalhadamente o projecto para a 2ª edição do festival, com as virtudes e os devidos apoios internacionais e nacionais, e onde incluíam dois parágrafos esclarcedores:
...
Houve, no entanto, um incidente ocorrido na 1.ª noite do Festival que, não fora o elevado grau de maturidade cívica do público presente, poderia ter obscurecido o magnífico resultado final obtido. É nosso dever esclarecer que o acontecido foi produto de um acto irreflectido dum músico branco que vinha integrado num agrupamento norte-americano, o qual por motivos de saúde se encontrava emocionalmente perturbado, mas como V.Exª. decerto não ignora, não encontrou o mais pequeno eco nos restantes músicos, que de resto até criticaram vivamente a atitude.
Como é evidente procuramos evitar a repetição de tais incidentes, os quais nada têm a ver com uma manifestação cultural deste tipo, o que nos levou a não trazer músicos ligados a determinada corrente do Jazz, que sobrepõem a política à qualidade musical, conforme se poderá constatar pelos nomes que indicamos no projecto anexo.
Isto leva-nos a crer que este ano tudo correrá sem problemas.
...
E um dos despachos manuscritos, levados ao Sr. Secretário de Estado, avisava:
«Os organizadores comprometeram-se a não apresentar qualquer músico de “free jazz”» (18) (19).

Glórias e pecados e
tudo está bem quando acaba bem
Villas-Boas nunca perdoou a Charlie Haden, que lhe ia estragando o festival, e a José  Duarte a quem culpava directamente pelo acontecido.
A rivalidade entre os dois umbigos era antiga, mesmo se catorze anos e estilos bem distintos os separavam: Luís Villas-Boas é o pai incontestado do Jazz em Portugal, desde os anos 40, fundador do Hot Club e organizador de concertos, enquanto José Duarte tinha nascido para o Jazz bem mais tarde, com Raul Calado e o CUJ, e era um divulgador e um comunicador inato, e tinha-se tornado «a voz do jazz» ao dar voz e corpo aos Cinco Minutos de Jazz.  
De certa forma, o Villas atribuía ao Zé Duarte a autoria do incidente, quase o resumindo a um episódio de inveja:
... o Charlie Haden faz uma declaração política com intenções que um dia virão a ser faladas, pois de facto houve alguém que provocou essa declaração, isso já está provado...(20)

Creio que não poderemos dizer que José Duarte «tenha sido o culpado» pelo incidente, e Charlie Haden sempre afirmou que tinha sido dele a ideia, com a concordância de Ornette e também de Dewey Redman e Ed Blackwell, embora seja claro também que eles (Duarte e Haden) conversaram e poderão ter discutido os pormenores da intervenção.
Mas as posições políticas de Charlie Haden eram sobejamente conhecidas e o primeiro disco da  Liberation Music Orchestra tinha já dois anos - de 1969 - e tinha tido enorme repercussão internacional; pelo que o desconforto de Charlie Haden por vir tocar num «país fascista» e a dedicatória surgem como naturais. Desdizendo também Villas-Boas o tema «Song for Che» fez parte do alinhamento de todos os concertos dessa tournée outonal do Quarteto de Ornette Coleman, e não, como o primeiro afirmou, tinha sido composto para Portugal.

Passaram-se quase cinquenta e cinco anos desde o acontecimento e tenho dois grandes agradecimentos a fazer, a Luís Villas-Boas e a Charlie Haden; pelo festival de Jazz que sem a paixão pelo Jazz e determinação do primeiro não teria acontecido, e pela coragem de enfrentar a polícia política portuguesa do segundo. Podia ter corrido mal, mas felizmente tal não aconteceu.
Eu diria que um e outro fizeram o que tinham que fazer, e fizeram-no bem, e ainda bem.

Eternamente Villas e Haden!
Luís Villas-Boas será eternamente o pai do Jazz em Portugal e, a meu ver, há dois momentos na História do Jazz em Portugal e o Villas esteve na origem dos dois: a criação do Hot Club e o Cascais Jazz.
Por outro lado, Charlie Haden será recordado como o homem que teve a coragem de enfrentar o regime torcionário português, e com o seu gesto contribui, não tenho dúvidas, para a tomada de consciência política de inúmeros jovens, que perceberam naquele momento que não estavam sozinhos, que era possível.
O regime corrupto e criminoso de Salazar e Caetano ainda duraria mais dois anos, e Charlie Haden regressaria a Portugal já depois da Revolução Portuguesa, por diversas vezes, tendo sido recebido como um amigo de Portugal.

Já neste século Charlie Haden tocou com Pat Metheny no CCB em 2003 (Beyond the Missouri Sky), em 2006 no Guimarães Jazz à frente da Liberation Jazz Orchestra (onde tocou o Grândola num concerto emocionante), e com o Quartet West no Seixal Jazz (com a convidada Melody Gardot que ajudou a recriar o Sophisticated Ladies), em 2010.
O episódio de 1971 está eternizado no álbum Closeness, um disco de duetos de 1976, com Keith Jarrett, Alice Coltrane, Ornette Coleman e Paul Motian na faixa «For a Free Portugal», que se inicia com a declaração do Cascais Jazz, e o segundo disco da Liberation, «The Ballad of the Fallen», de 1983, inclui uma recriação pessoal do Grândola. 

1 de Outubro de 2026


Bibliografia consultada:
Livros
“É Jazz quando me chegam as lágrimas aos olhos”, Hélder Bruno Martins, 2024
O Jazz segundo Villas-Boas, João Moreira dos Santos, 2007
Luís Villas Boas, Um roteiro biográfico, João Moreira dos Santos, 2024
Jazz em Cascais, João Moreira dos Santos, 2009

Publicações, revistas
All Jazz 2, 2002
Hot News 12, 2016
Hot News 19, 2024

Jornais, artigos
Artigo «Jazz, de Varsóvia a Cascais», José Duarte, Diário de Lisboa, 7 de Novembro de 1971
Entrevista de Rui Eduardo Paes a Luís Villas-Boas, Expresso, 10 de Novembro de 1984

Internet
JazzLogical, www.jazzlogical.net
https://www.jazzlogical.net/jazzologia/Cascais%20Jazz%2050%20anos/Cascais%20Jazz%2050%20Um.html
Entrevista de Amy Goodman a Charlie Haden, Democracy Now, 2006, https://www.democracynow.org/2006/9/1/jazz_legend_charlie_haden_on_his
Entrevista de Martin Smith a Charlie Haden, Dream Deferred,  https://www.dreamdeferred.org.uk/2014/07/his-mother-called-him-charles-a-tribute-to-charlie-haden/
Documentário de Carlos Barradas para a RTP, https://www.facebook.com/LeiriaCidadeCriativa/videos/charlie-haden-no-festival-jazz-cascais-1971-charle-haden-e-carlos-paredes-ao-viv/263264294814214/

Documentos consultados na Torre do Tombo, entre outros
Relatório de ocorrências na sede da PIDE/ DGS de 21 de Novembrode 1971
Auto de Declarações do Interrogatóro da PIDE a Charlie Haden, de 21 de Novembro de 1971
Ofício de Luís Villas Boas e Hugo Lourenço ao Secretário de Estado da Informação e Turismo, Dr. Moreira Baptista, 1 de Agosto de 1972, Torre do Tombo.

Discos
Closeness, Charlie Haden, 1976
Liberation Orchestra, «The Ballad of the Fallen», de 1983

Charlie Haden, 1937 - 2014
Luís Villas Boas, 1924 - 1999
José Duarte, 1938 - 2023


Notas

(1) E devo ter sido mesmo eu o primeiro a chamar a atenção para a importância do episódio no artigo que escrevi, comemorativo dos trinta anos do Cascais Jazz de 1971 no número 2 da All Jazz, em 2002.

(2) All Jazz n. 2, Novembro de 2002, Cascais Jazz 30 anos. A All Jazz foi a primeira revista de Jazz nacional e tinha como editor Pedro Costa e eu, Leonel Santos com Director de Redacção.

(6) A duas semanas do Cascais Jazz, a 7 de Novembro, José Duarte publica um texto no Diário de Lisboa sobre o Cascais Jazz que se iria realizar, «Jazz, de Varsóvia a Cascais», com um subtítulo «Depois do nada um bom festival sem real significado colectivo»
https://www.jazzlogical.net/jazzologia/Cascais%20Jazz%2050%20anos/Cascais%20Jazz%2050%20Cinco%20Diario%20Lisboa.html

(7) José Duarte estava em Varsóvia para assistir ao Jazz Jamboree '71 (XIV Festival Internacional de Jazz / XIV Międzynarodowy Festival Jazzowy) que ocorreu nos últimos dias de Outubro, enquanto o quarteto de Ornette Coleman tocou por esses dias em Paris, Copenhaga, Belgrado, Berlin Ocidental e Cascais. Todos estes concertos foram gravados.
Já agora, o Jazz Jamboree '71 incluía a Duke Ellington Orchestra, The Giants of Jazz, o quarteto de Gary Burton, a Preservation Hall Jazz Band, Mike Westbrook, a Michał Urbaniak Constellation e outros - e uma parte dos músicos era fornecidos por George Wein que era o homem do Newport Jazz Festival que também trazia os músicos para o Cascais Jazz. Embora o grupo de Ornette Coleman onde tocava Charlie Haden também fizesse parte do pacote Newport, nem todos os grupos tocavam em todos os festivais.

(9) É Jazz quando me chegam lágrimas aos olhos, p. 106, Hélder Bruno Martins, 2024

(10) O fadista João Braga, um dos três organizadores do 1.º Cascais Jazz, com Villas Boas e Hugo Mendes Lourenço.

(11) Jazz em Cascais, p.84, João Moreira dos Santos, 2009, João Braga citado por João Moreira dos Santos

(12) A partir de conversa, provavelmente com João Braga.

(13) Provavelmente fonte oral, de João Braga.

(14) Silva Pais: Director da PIDE/DGS desde 1962 e até à Revolução.

(15) Entrevista a Rui Eduardo Paes, Expresso, 10 de Novembro de 1984

(16) Idem

(17) Ofício de Luís Villas Boas e Hugo Lourenço ao Secretário de Estado da Informação e Turismo, Dr. Moreira Baptista

(18) Idem

(19) Mas Villas-Boas haveria de trazer por diversas vezes músicos de free-jazz a Portugal, entre as quais Cecil Taylor, em 1979.

(20) Entrevista a Rui Eduardo Paes, Expresso, 10 de Novembro de 1984

 

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